sexta-feira, 24 de julho de 2009

MADAME SATÃ: UM MITO DO MUNDO GAY

Transcrevo nas linhas abaixo, uma reportagem sobre o filme Madame Satã, protagonizado magistralmente por Lázaro Ramos. Fiquei tão impressiondo com o filme que achei que o Lázaro era gay... e assumido.
Essa reportagem é de novembro de 2002 e foi postada na Veja On Line. Deste ano pra cá o ator tem se notabilizado por bons trabalhos no cinema e na televisão. Mas nada se compara a sua interpretação como o lendário Madame Satã.
Quando pequeno, eu tinha um fascínio pela figura que causava rebuliços na Lapa dos antigos malandros. Um malandro assumidamente gay. Logo um malandro que todos julgamos ser uma figura masculinizada ao extremo. Pois o maior dos malandros era gay. Brigava, matava, amava, bebia e jamais frequentou armários para esconder suas preferências homoeróticas.



Dores de um parto
Madame Satã mostra como umhomem venceu a distância entreo que era e o que queria ser

Isabela Boscov

O baiano Lázaro Ramos, como o personagem-título: erupções de ira.

Na primeira cena de Madame Satã (Brasil/França, 2002), que estréia nesta sexta-feira, o protagonista João Francisco dos Santos é apresentado num close que, de tão direto, chega a ser humilhante. Uma voz, provavelmente de um policial, diz quem ele é: negro, analfabeto, homossexual, proxeneta, criminoso. Não deixa de ser um resumo correto do currículo de Santos (1900-1976), que ficaria mais conhecido como o transformista Madame Satã, figura emblemática de uma certa boêmia e marginalidade carioca das décadas de 40 e 50. O trabalho do diretor Karim Aïnouz, porém, é mostrar quanto a descrição acima é incompleta. Aïnouz flagra Santos num período crucial de sua vida, entre 1931 e 1932. Camareiro de um cabaré pulguento do bairro carioca da Lapa, Santos (o excepcional Lázaro Ramos) sonha em ser também ele o astro – ou, melhor dizendo, a estrela – de um espetáculo. É algo que suas circunstâncias definitivamente não favorecem. Ele é paupérrimo e desprezado, mora num cortiço com a prostituta Laurita (Marcélia Cartaxo) e o travesti Tabu (Flávio Bauraqui), não sabe nem assinar seu nome e é presa de uma ira vulcânica, que se manifesta sempre que ele é levado a medir a distância entre o que é e o que quer ser. Em nenhum momento, porém, Santos se vê como vítima, no que é endossado por Aïnouz. Ao contrário, a beleza de Madame Satã está na admiração que o filme expressa por um homem que buscou o quanto pôde um invólucro que correspondesse ao conceito que ele tinha de si mesmo. "Sou b... porque eu quero, mas também sou muito macho", diz Santos em dado momento, exemplificando seu dom para conciliar seus extremos.



O verdadeiro Madame Satã morreu em 1976.


O cearense Aïnouz, de 36 anos, faz com Madame Satã sua estréia em longa-metragem, mas é um veterano do ramo. Formado em arquitetura, ele fez mestrado em história do cinema na Universidade de Nova York, trabalhou como assistente de montagem e direção para diversos cineastas americanos (entre eles Michael Mann, em O Último dos Moicanos) e assinou o roteiro de Abril Despedaçado. Aïnouz se descreve como um teórico por excelência e, em certa medida, está correto. Mas o rigor com que ele estrutura seu roteiro se combina de maneira brilhante com a turbulência de Madame e com as soluções narrativas empregadas no filme. Na fotografia excelente de Walter Carvalho, os personagens nunca estão inteiros dentro do quadro, como se não coubessem naqueles limites, e o foco muitas vezes se dilui, como se as emoções dos protagonistas turvassem sua visão. No fim desse ano de 1932, Santos perde de vez a cabeça. Ridicularizado por um bêbado, ele mata o sujeito com um tiro. Santos ficou preso até 1942 e saiu da cadeia já na encarnação que seria a sua definitiva: foi direto para um desfile com uma fantasia intitulada Madame Satã, e acabou virando lenda. Exatamente como ele sempre quis.